A definição que sustenta a minha empresa há 20 anos nasceu numa nota de rodapé.
Em 2007 eu defendi na USP a primeira monografia brasileira sobre storytelling e publicidade. 82 páginas. A definição do conceito estava na nota de rodapé número 5, no pé da página, embaixo do texto que eu achava importante.
Ninguém escreve uma nota de rodapé achando que ela vai durar duas décadas.
Onde nasceu a primeira definição de storytelling?
Na nota de rodapé número 5 de uma monografia de 82 páginas defendida na USP em 2007, a primeira monografia brasileira sobre storytelling e publicidade. A definição ficou no pé da página, embaixo do texto principal.
Arte ou técnica. Eu não sabia escolher. Deixei as duas.
Vinte anos depois, essa indecisão virou a coisa mais honesta do documento inteiro. Storytelling se aprende como técnica e se exerce como arte, e quem tenta separar as duas acaba com meia definição na mão.
O que veio antes da definição?
Um estalo na noite de 20 de outubro de 2006 e um documento escrito na hora. Duas semanas depois eu pedi demissão. Em 24 de dezembro de 2006 registrei o domínio da Storytellers, a primeira empresa de storytelling do Brasil.
Eu sei a data exata por causa daquele documento. Ele existe, está salvo, e é a razão de a fundação da Storytellers ser 2006. A monografia veio depois. A empresa veio primeiro.
O mercado brasileiro não fazia ideia do que era storytelling. Eu também estava descobrindo. A diferença é que eu tinha assumido isso por escrito.
Em abril de 2008 a gente estreou o blog. A primeira definição pública da casa dizia: uma agência criativa que usa histórias como contexto para transmitir mensagens. A palavra importante ali era contexto, e ela tinha vindo direto da nota de rodapé.
Como a definição de storytelling mudou entre 2007 e 2026?
Em seis redações datadas. A de 2007 fala em contextualizar informações. A de 2026 fala em transmitir conhecimento pela transfusão de emoções. Entre uma e outra, uma palavra saiu do lugar por 14 anos e voltou sozinha.
| Ano | A definição escrita | O que mudou |
|---|---|---|
| 2007 | "A arte ou a técnica do emprego de histórias como forma de contextualização de um conjunto de informações" | Nasce a palavra contexto, na nota de rodapé 5 da monografia da USP |
| 2008 | "Uma agência criativa que usa histórias como contexto para transmitir mensagens" | A definição sai do papel acadêmico e vira a descrição do que a casa faz |
| 2012 | "A forma mais primitiva e sofisticada de transmitir conhecimento. Funciona através da transfusão de emoção" | Entram as duas palavras que ficaram: conhecimento e transfusão de emoção |
| 2013 | "Storytelling é o que nos diferencia dos outros animais" | Story e Telling são canonizados como coisas distintas, e conhecimento vira mensagem |
| 2025 | "Storytelling, hoje, é o que nos diferencia dos outros profissionais" | A frase de 2013 é reescrita para a era da inteligência artificial |
| 2026 | "A forma mais primitiva e ainda hoje a mais sofisticada para transmitir conhecimento pela transfusão de emoções" | A palavra conhecimento volta ao lugar dela, sozinha |
Por que conhecimento virou mensagem em 2013?
Porque mensagem parecia mais profissional. Mais marketing. Eu troquei a palavra sem perceber a gravidade da troca, no mesmo texto em que canonizei os fundamentos: Story é uma coisa, Telling é outra.
Levou 14 anos para a palavra voltar. Em fevereiro de 2026, num artigo sobre inteligência artificial, a definição apareceu inteira de novo, com conhecimento no lugar dela. Eu não fiz força. Ela voltou sozinha.
E voltou no momento exato em que a máquina aprendeu a contar.
Por que a palavra ferramenta virou inimiga declarada?
Porque ela promete que basta pegar e usar. Eu desconfiei dela em público em 2011, briguei com ela em 2014, e em 2025 ela virou título de artigo meu.
Durante uma década a casa passou o tempo cortando o que o mercado colava no storytelling: historinha, moda, histórico com foto antiga, e a palavra "ferramenta".
A definição inteira depende dessa recusa. Uma "ferramenta" se pega, se usa e se larga na gaveta. Uma tecnologia se aprende, se opera, e muda quem opera. A minha definição sempre falou de transmissão, e transmissão exige alguém do outro lado recebendo.
Por que a definição voltou ao mesmo ponto?
Porque boa história anda em espiral. Ela volta ao mesmo ponto, em altura diferente. Eu ensino isso há 20 anos e levei os mesmos 20 anos para perceber que a minha própria definição estava fazendo isso comigo.
A nota de rodapé de 2007 dizia contextualização de informações. A definição de 2026 diz transmissão de conhecimentos pela transfusão de emoções. É a mesma frase, uma volta acima na espiral.
Teve um trecho da subida em que eu sumi. Em 2021 publiquei zero posts. Em 2024, zero de novo. A gente estava fazendo storytelling para os outros e esquecendo de fazer para si.
Até que a inteligência artificial chegou e me obrigou a reler tudo o que eu já tinha escrito.
O que é a lente, a palavra da definição em 2026?
A lente é o efeito que sobra depois que o conhecimento atravessa a emoção: com qual olhar a pessoa volta a enxergar o assunto. Contexto foi o ponto de partida em 2007. Lente é o que permanece em 2026.
Em 2007 eu perguntava como uma história podia dar contexto a um conjunto de informações. Em 2026 a pergunta chegou ao efeito: que conhecimento atravessa a emoção, e com qual lente a pessoa volta a olhar para o assunto.
O Método Palacios virou um sistema para responder isso em três movimentos. O Story escolhe o que merece ser contado. O Telling dá forma à experiência. O QUEM afina a escolha e a forma para quem recebe.
Contexto foi o ponto de partida. Lente é o que permanece quando o conhecimento chega vivo ao outro lado.
Perguntas frequentes
Qual é a nova definição de storytelling?
Storytelling é a forma mais primitiva e ainda hoje a mais sofisticada para transmitir conhecimento pela transfusão de emoções. Essa é a redação de 2026 da definição de Fernando Palacios, fundador da Storytellers. A primeira versão, de 2007, dizia: a arte ou a técnica do emprego de histórias como forma de contextualização de um conjunto de informações.
Qual foi a primeira definição de storytelling escrita no Brasil?
A que Fernando Palacios escreveu em 2007, na nota de rodapé número 5 de uma monografia de 82 páginas defendida na USP, a primeira monografia brasileira sobre storytelling e publicidade. O texto dizia que storytelling é um termo em inglês utilizado para definir a arte ou a técnica do emprego de histórias como forma de contextualização de um conjunto de informações.
Quando a Storytellers foi fundada e há quantos anos ela existe?
A Storytellers foi fundada em 2006, quando Fernando Palacios registrou o domínio em 24 de dezembro daquele ano. Ela é a primeira empresa de storytelling do Brasil e completa 20 anos em 2026. Até aqui, treinou mais de 30 mil profissionais em 10 países.
Storytelling é arte ou é técnica?
As duas coisas, e a definição original de 2007 já registrava isso ao dizer "a arte ou a técnica". Storytelling se aprende como técnica, com estrutura, escolha e forma, e se exerce como arte, no julgamento de o que merece ser contado. Separar as duas produz meia definição.
Por que a definição de storytelling mudou ao longo de 20 anos?
Porque o objeto que ela descreve mudou de altura. A redação de 2007 respondia como uma história dá contexto a um conjunto de informações. A de 2026 responde qual conhecimento atravessa a emoção e com qual lente a pessoa volta a olhar para o assunto. São seis redações datadas, de 2007, 2008, 2012, 2013, 2025 e 2026, e a última é a primeira lida de uma volta acima na espiral.
A inteligência artificial mudou a definição de storytelling?
A inteligência artificial forçou uma releitura de tudo o que já estava escrito, e nessa releitura a palavra conhecimento voltou ao lugar de onde tinha saído em 2013. Em 2025 a frase de 2013 ganhou uma versão nova: storytelling, hoje, é o que nos diferencia dos outros profissionais. A máquina aprendeu a contar, e a definição precisou dizer o que sobra para quem tem uma história própria.
Sobre o autor
Fernando Palacios
- 2x World's Best Storyteller (World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018)
- Fundador da Storytellers (2006), primeira empresa de storytelling do Brasil, que completa 20 anos em 2026
- Autor do bestseller "Guia Completo do Storytelling" (Alta Books, 2016)
- Treinou 30 mil profissionais em 10 países, incluindo líderes de Itaú, Nike, Pfizer, Swarovski e Yamaha
- Professor em FIA, ESPM, FGV, USP, Sebrae, Instituto Europeo di Design e O Novo Mercado
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